O Lado cultural da Cultura

 

Quando o poeta fala mais alto do que o constitucionalista, damos um passo atrás; ou - quem sabe - à frente. Eu não me espantei quando o "presidente em exercício" voltou  atrás. Não vou especular, mas ficaria assustado se o seu lado poeta invertesse as coisas, criando um baita Ministério da Cultura e um minúsculo ministério da educação.  A cultura lida como "civilização", adorno, bom gosto, vanguarda, sofisticação e identidade burguesa, individualista e revolucionária, como o centro englobador da dimensão pedagógica; e a  educação lida apenas como instrução burocratizadora, que oferece direitos e disciplinas, como o lado "oficial"  da vida profissional - o lado que ensinaria  chatices como o Hino Nacional, a Constituição, a honestidade cívica, que demanda obedecer os sinais e os juramentos à bandeira, mais matemática, português, historia e geografia - tem sido pouco discutido na vida republicana nacional. Tudo aquilo que um brasileiro comum deveria aprender, para conviver de modo igualitário um cotidiano justo, ainda está para ser debatido no Brasil.

Os aristocratas, sem saber, querem mercado com reserva; outros preferem o populismo que louva a antieducação; e alguns querem talento e mercado com um mínimo de igualdade e competição. No ramo da cultura entendida como arte e talento, os poderosos, os riquinhos e os burocratas não têm lugar.

Cauby Peixoto sublimou esplendidamente os terríveis preconceitos contra a sua sexualidade, pelo canto. Ele jamais precisou de um ministério para aquilo que surge de um dom aproveitado com afinco: o seu canto, a sua arte. O fato é que fazemos um contraste equivocado entre educação e cultura. Na cultura, prejudicaria a visão eurocentrada da "civilização". Este seria o ministério dos artistas, os demiurgos da cultura investida como literatura, poesia, musica, artes plásticas e cênicas. Assim falou Roberto Damatta em maio 2016. Esse conjunto que estaria do lado "esquerdo" e seria parte da dimensão criativa e carismática do conjunto total de valores, técnicas e sabedorias que todos nós - independentemente dos nossos posicionamentos políticos, assumiríamos como denominadores comuns a quem nasce ou assume a identidade de "brasileiro" com todas as suas vantagens e desvantagens. Tal lado carismático, criativo, artístico, mágico e quase sempre surpreendente, pois não pode ser previsto ou programado com precisão, não seria subordinado nem oposto, mas complemento educacional. Ambos pertencem à sociedade. O Estado é um suplemento. A sagacidade do constitucionalista cegou o poeta, deixando passar a idéia de que o tecido brasileiro é apenas feito de ritos legais quando, na realidade, ele tem muitas dimensões. A simbólica ou a cultural - que é, de fato, o que define o humano - e uma fronteira crítica. Nela, estão grandes artistas a dizer que não se governa sem a direita. Estou dizendo que o governo Temer está certo? Não! Estou dizendo que ele está errado? Também não. O que estou dizendo é que nos falta um entendimento da "cultura" como um conjunto que engloba as nossas vidas, dando-lhes um sentimento compartilhado.

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Novo ministro Marcelo Calero garante que o Governo Dilma jamais priorizou a cultura. Indicação pessoal de Temer, Calero prega dialogo e conciliação para o MinC e critica antiga gestão. O novo ministro da Cultura, Calero, defendeu, em entrevista, um "ajuste" na Lei Rouanet para financiamento de projetos culturais por meio de renúncia fiscal e não uma revisão ampla, bandeira da gestão anterior, de Juca Ferreira. Em conversa por telefone, ele disse que, no Governo Michel Temer, o setor terá mais atenção do que experimentou no da presidente afastada, Dilma Roussef. Dispôs-se a negociar com profissionais da cultura, que  ocupam prédios do MinC em 25 unidades da Federação, e até a manter algumas atividades, como as que vêm movimentando o Palácio Gustavo Capanema, sediado no Rio, e também por artistas no último dia 16 de maio.Vinte e cinco unidades da Federação têm prédios do MinC ocupados por pessoas  que se opõem ao governo. Afirmam que só sairão quando Temer deixar a presidência. Como pretende tratar disso? Cogita pedir reintegração de posse? Não está no nosso cenário no momento. O que a sociedade brasileira quer é que as funções públicas dos edifícios sejam preservadas. Por meio da negociação com as ocupações vamos procurar garantir isso. Há ocupações extremamente exitosas, que deram nova função ao prédio, como a do Palácio Gustavo Capanema. Os pilotis sempre foram um lugar muito gélido. Agora têm ocupação artística de primeira linha e acho que temos a obrigação de manter essa diretriz no longo prazo.

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